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Confira Um pequeno histórico sobre a proibição da erva entre EUA e Brasil no século XX, nas palavras de Thiago Mourão*

“A própria história mostra que conhecê-la e reconhecê-la não é meramente liberar uma droga, mas possibilitar o desenvolvimento de uma multi-indústria limpa e de alto potencial econômico. Conhecê-la e reconhecê-la é desatar amarras da hipocrisia e possibilitar conversas mais diretas sobre o efeito do uso de entorpecente para a saúde – principalmente dentre os adolescentes.”

No Brasil, o uso da cannabis como entorpecente é marginalizado desde o século XIX, visto pela elite como um hábito contraventor de negros e religiosos não católicos. O psiquiatra Rodrigues Dória (1857-1958) escreveu teses, artigos e tratados associando o hábito a atitudes violentas e criminosas. Em 1932, o Brasil sancionou, pela caneta do presidente Getúlio Vargas, a primeira lei que criminaliza o usuário da erva e o coloca ao lado do traficante.

No início do século XX, a ascendência da indústria nos Estados Unidos fez aquele país direcionar sua produção agrícola para abastecimento de matéria-prima industrial. Assim, a Cannabis passou a reinar. As fibras das folhas eram transformadas em papel, cordas náuticas, roupas e móveis, velas de barcos, na lataria do carro de Henry Ford. As sementes eram primordiais como biocombustível de muitos veículos e alimentos, com um óleo altamente proteico. A flor era utilizada como medicação para dores musculares e falta de apetite. O efeito, para relaxar e rir. Lista-se cerca de cinco mil produtos que podem ser feitos com a cannabis. Uma planta cosmopolita, de fácil e rápido crescimento, utilizada milenarmente.

Durante este auge, próximo aos anos 30, o magnata da comunicação impressa William Hearst comprou uma imensa área de árvore para produção de papel. O papel de Cannabis era muito mais barato do que o de árvore, e isto o ameaçava. Lammot Du Pont era um petroquímico que produzia escova de barbear, calças, pneus e óleo sintético – muito mais caro que o óleo da cannabis. Além de ameaçados pelo mercado, ambos eram amigos de Andrew Mellon, um poderoso banqueiro dono de um grupo petroleiro que, dentre muitas, faziam parte a Chevron e a Esso. Rockfeller, magnata do petróleo, era também um poderoso investidor da indústria farmacêutica. As gigantescas indústrias farmacêuticas, de plástico, de óleo e combustível se uniram. Andrew assumiu a secretaria do tesouro nacional e colocou seu sobrinho como chefe de repressão narcótica.

Os EUA fizeram uma massiva propaganda interna. Aproveitando-se do racismo, o país batizou-a hispanofonicamente de marijuana, a fim de marginalizar ainda mais a planta. Associou-a a mexicanos e negros. Desassociou-a da planta multiuso. O nome, então, passou a ser sinônimo de perigo, sendo a ele agregado o mito de ser porta de entrada para outras drogas; e combustível para devassidão. Todos os veículos de comunicação americanos traziam propagandas contra a erva.

Em 1932, a plantação de marijuana foi proibida pelo congresso estadunidense. O Brasil, tendo como principal parceiro comercial os EUA, entrou na onda, comprou a briga e o Estado Novo, 1937, endureceu mais ainda a força-tarefa da guerra contra as drogas.

1961 trouxe a convenção única de narcóticos e reuniu mais de 150 países, liderados pelos EUA, na guerra contra as drogas. A produção de maconha ficou proibida em praticamente todo o globo e o saldo de mortes e dinheiro para a indústria bélica é incontável. Acreditávamos que a indústria sintética era o grande milagre da humanidade e que, com ela, atingiríamos um patamar evolutivo jamais imaginado. Hoje, pela qualidade ambiental que criamos, percebemos que não é bem assim.

Hoje, países como Holanda, Uruguai, Jamaica e parte dos próprios Estados Unidos legalizaram a maconha. Cada um à sua forma e ao seu modelo. No Brasil, o presidente da Câmara dos Deputados já vetou a conversa. A presidente da República também não é adepta ao papo. No Brasil, acreditamos que o petróleo vai nos salvar da crise financeira e social. Alunos de Harvard pressionam a universidade para cortar os investimentos na indústria do carbono. Stanford aderiu a ideia em 2014. A Europa constrói a maior ciclovia do mundo. Internacional. No Brasil, ciclistas são xingados e assassinados diariamente. O governo abaixa IOF de veículos e aposta em ônibus com curral como a grande solução para os problemas de transporte urbano.

A própria história mostra que conhecê-la e reconhecê-la não é meramente liberar uma droga, mas possibilitar o desenvolvimento de uma multi-indústria limpa e de alto potencial econômico. Conhecê-la e reconhecê-la é desatar amarras da hipocrisia e possibilitar conversas mais diretas sobre o efeito do uso de entorpecente para a saúde – principalmente dentre os adolescentes. Ao menos, temos o ativismo da Marcha da Maconha que tem feito um excelente trabalho de fomento da discussão e ganha diariamente novos adeptos.

*Thiago Mourão, escritor, 28 é formado em biologia e especialista em divulgação de Ciencia pelo Museu da Vida da Fiocruz RJ. Aluno de literatura à distancia da Harvard Extension School, escreve roteiros de institucionais e lança ainda neste semestre o livro “Java Jota”.

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