Apoiomedicos maconha

Na véspera do meu aniversário, consegui me presentear com uma ida a Brasília para exercer a lendária cidadania. Estive presente na quinta audiência pública da #SUG8 realizada na Comissão de Direitos Humanos do Senado – para quem não sabe, esta é a sugestão legislativa de iniciativa popular nº 8 de 2014, que discute a regulação do uso medicinal e recreativo e industrial da maconha. Como testemunha, resolvi contar pra vocês o que rola por lá.

Foram marcadas sete audiências para debater a Regulação da Maconha. Esta já era a quinta audiência e todas tiveram grandes relatos dos convidados a mesa do Senador Cristovam Buarque, relator do projeto.

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  1. Em Junho, durante a primeira audiência, o secretário Nacional de Drogas do Uruguai, Julio Calzada, destacou o efeito positivo da legalização do comércio da droga sobre a criminalidade naquele país.
  2. No segundo encontro, o coronel Jorge da Silva, ex-chefe do Estado Maior da Polícia Militar do Rio de Janeiro, disse que os índices de violência demonstram que o atual modelo proibicionista não deu resultados positivos.
  3. Na terceira audiência, especialistas defenderam o uso medicinal da maconha.
  4. Os convidados debateram a legislação atual e a adequação da pena de prisão para pessoas presas com menos de 50 gramas de maconha durante o quarto debate.

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Em todas as audiências, houve várias manifestações de membros contrários à regulação, que infelizmente, ao invés de propor regras e leis, utilizaram discursos raivosos e conteúdo 100% pejorativo – literalmente – usando todas as definições que esta palavra traz: desagradável, ofensiva, e humilhante.

Este tipo de discurso, embora incisivo e por vezes hostil, também possui seus pontos relevantes, os quais deviam ser explorados de maneira mais inteligente pela bancada proibicionista; caso seja legalizada, a maconha poderá servir de “porta de entrada”para drogas mais nocivas?  como adolescentes vão reagir às novas regras da legalização?
Perguntas como estas, de grande interesse para ambos, acabam sendo deixadas de lado, vítimas do preconceito. Isto distorce o real intuito da SUG8 que é: ao invés de criminalizar, o que podemos fazer com a Maconha? Na parte Medicinal, Na Recreativa (leia-se uso privativo. porque tem gente que lê e acha que vai ver usuário fumando um no parque de diversões ao lado do filho) e no Industrial. 

Até então, quem tem acompanhado pela mídia tradicional, vai notar que todos os debates sobre a maconha ofereceram apoio geral ao uso terapêutico de substâncias como o canabidiol (CBD) que tem se mostrado eficiente em pacientes que sofrem de condições como epilepsia grave, esclerose múltipla, esquizofrenia e mal de Parkinson. Isso só ocorre porque as mães que estão lá querem a cura para seus filhos, mas muitos esquecem dos filhos das outras mães que são preso pelo porte da droga. Os psiquiatras das clínicas de recuperação não querem perder sua parte do ganho. E a indústria farmacêutica não quer que você plante uma erva natural e tenha seu remédio em casa. Ela quer produzir e que seja vendida sobre prescrição médica.

Eu acompanhei praticamente todas as CDH’s por televisão, por internet e também aqui pelo #SB. Notei que os maconheiros não se faziam presente nas sessões. Como pode ter gente na marcha da maconha e quase ninguém lá nesse passo tão importante?
Colaborador aqui do Smoke-Buddies e com verba própria fui a Brasília tentar entender o que acontece lá.

Confesso que chegar até lá dentro da audiência foi mais difícil do que eu imaginava, até mais desafiador que enfrentar o calor. Isso porque o Senado permite que você entre com 1 Macbook, 2 Celulares. Mas não com uma câmera GoPro! (tsc). Para entrar com esse equipamento, eu precisava de um oficio da assessoria de imprensa, de fato isso também aconteceu com o Matias, reporter da VICE também.

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Capitão Presença
Depois da sessão, conversando com Matias, descobri que ele também era editor da revista Tarja Preta e foi o maconheiro-inspiração do cartunista Arnaldo Branco para criar o Capitão Presença; famoso personagem no universo verde que de forma sarcástica mostra o cotidiano da desinformação.
Ainda em seu relato, da VICE ele conta que correu para conseguir o tal oficio, dito acima. Mas não conseguiu – teve que deixar no carro de um conhecido que encontrou pelas escadarias do Senado.
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Eu no entanto estava ali com o mesmo problema, e sem ideia de onde deixar minha câmera. Sem perder a cabeça tentei contornar a situação de outra forma, já sabia que o tempo não estava ao meu favor; Então já fui fazendo inúmeras perguntas aos seguranças que estavam na porta;

  • Vocês tem guarda volume? Não!
  • Vocês podem guardar isso? Não!
  • Vocês podem fingir que isso na verdade não o que vocês acham que é? Não!
    Okay, há um quiosque perto?

De tantas perguntas, uma resposta foi afirmativa; Andei alguns metros de ali, com pressa, tentando encontrar tal quiosque. E com uma conversa em mente, André Kiepper – analista de Gestão em Saúde da Fiocruz e autor da proposta no senado – já havia alertado que os probicionistas estariam antes que nós na sala.
Cheguei no quiosque conversei com o rapaz que trabalhava ali, expliquei a situação e ainda que receoso por deixar algo pra quem eu nem conhecia, deixei em cheque o que uma pessoa pode ter de melhor: a honestidade.

Casa cheia, de propósito.

Quando cheguei novamente a porta do Senado. O segurança nos informou que a audiência já estava estava cheia eu e muitos outros que estavam ai tivemos que formar uma fila e esperar durante cerca de meia hora até poder entrar. Mas nem tudo era perfeito, queriam nos colocar em outra sala, com uma transmissão pela televisão ou projetor. De fato fizeram isso com alguns. Eu particularmente tive que trocar algumas mensagens com quem estava lá dentro para viabilizar a entrada.

5-audiencia

Para esta audiência, foram convidados o procurador da República Guilherme Zanina Schelb, os juízes Carlos Maroja e João Marcos Buch e o psiquiatra Fábio Gomes de Matos e Souza. Também participaram os juízes João Batista Damasceno e Roberto Luiz Corcioli Filho, da Associação de Juízes para a Democracia, e a coordenadora do Movimento Mães de Maio, Débora Maria da Silva. Neste dia a opnião destes foi unânime em afirmar que a solução para combater o tráfico de drogas não é probir.

Nessa ocasião o Senador, também teve que cortar a fala do Luiz Bassuma.  Que questiona a legitimidade das assinaturas que criaram esta proposta pública SUG8. No entanto a história é outra, veja o vídeo.

Após a fala dos convidados para audiência, chegou a vez do publico falar.
CDH - Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa
Droga é Caixão.

Quem falou primeiro foi a professora Maria Alice de Almeida da Costa, que arrancou choros da audiência ao contar o drama de ter uma filha viciada, que foi internada inúmeras vezes e morreu. Finalizou o depoimento uma frase:

Maconha recreativa é Caixão!

Respeito uma senhora que fala, que sua filha ‘morreu por maconha’. Mas se analisarmos a época que esse fato ocorreu, provavelmente vamos nos deparar com outra resposta: Quem matou a filha dela não foi a maconha, foi a falta de informação por parte da midia tradicional que cria um abismo entre as famílias e os filhos (a mídia só passou a falar de maconha abertamente nos últimos 4 anos) o contato dela com o tráfico, sem contar uma provável má influência de seus amigos.

Na sequência, teve o depoimento de outra mãe, a Dona Zilpa de Souza. Que disse algo que condiz mais com a realidade da atual gestão da ‘guerra as drogas’.

“Bom dia a todos, a dor dela é ter uma filha viciada numa clínica; a minha dor foi acompanhar meu filho todas as quintas-feiras numa prisão. Por quê? Porque ele ama maconha e resolveu plantar a maconha dele para não viver a custas de traficante. E eu deixei, até o dia em que ele foi denunciado: a polícia invadiu de uma maneira violenta a minha casa até o ponto de eu mandar ele abaixar a arma e falar que ele estava entrando num lar, e não na casa de bandidos.”

O filho da Dona Zilpa, já foi comentado muito no mundo canábico. Ele era o “Sativa Lover”, que  foi preso dias depois da Marcha da Maconha de 2011. Na época com 23 anos, ele foi condenado a sete anos e teve uma progressão da pena só em Julho de 2013 (noticiado aqui).

[quote_box_right]Não conseguem diferenciar banqueiros de bancários, mega traficantes de meros funcionários e assim permanecem estagnados. Quando não regredindo… A frase da música do ‘B Negão’ fazia mais sentido do que nunca nesse instante.[/quote_box_right]

Este caso ocorreu por uma falha comum no Brasil, 99% dos maconheiros que são pegos cultivando sua própria erva são enquadrados no artigo 33 do código penal brasileiro, ou seja, condenado erroneamente e arbitrariamente como traficante.

Conheci também os advogados do fórum sobre cultivo e ativismo – Growroom; Drs. Emilio Figueredo e Ricardo Nemer. Que foram também por conta própria à audiência, com a missão de pautar o cultivo caseiro. Vale muito a pena ver o depoimento deles.

Nessa ida pude conhecer outras pessoas que já haviam dado depoimentos no senado, como; Filipe Marques – estudante de Ciência Política na UnB,  Dr. Adriano Andrade – da página Advogado Contra o Proibicionismo e também o Carlos Penna Brescianini – Jornalista, Cientista Político, Especialista em Formas Alternativas de Energia, Pesquisador em Transporte Público e Meio Ambiente.

Os proibicionistas tem algum tipo de acesso privilegiado.
Enquanto rolavam mais alguns depoimentos sobre o termino de vidas com o crack, do álcool. Eu já me perguntava se iria conseguir falar lá, depois de tanto problema, tanta complicação – chegou a minha vez de falar. Uhhhh….

bagulho-loco

“Eu, vamo lá.” 

Eu era o último a defender a coerência do debate. Depois da minha fala haviam mais 25 pessoas, 25 que estavam com um único objetivo: desnortear a audiência.
Minhas anotações já haviam mudado inúmeras vezes, pelo tempo e também para não bater no mesmo discurso dos companheiros que estavam falando.
Quando o senador me dirigiu a palavra, todos os olhos preconceituosos apontaram para mim: Dei uma olhada rápida no computador e tive aproximadamente 40 segundos, antes da primeira interrupção.
De tempos em tempos a essa veio algumas outras falas de pessoas contrárias (sem microfone), como pelo pelo desrespeitoso Luiz Bassuma. Em alguns instantes até parece até jogo de futebol. É só reparar e ver como eles repudiam a minha convocatória aos os maconheiros em pleno Senado Federal Brasileiro.

Já sei, já sei. Você vai ver que eu estava nervoso. Então vou explicar um pouco melhor todos os pontos que eu citei ali:

  • Exercício
    Se você tem conhecimento e quer mudar o Brasil, quer mudar a sociedade. Sai do sofá e chega junto. Se todo mundo pensar em melhorar conjunto. O mundo melhora, como dizem: mudança começa de dentro da gente.
  • Ousadia e Audácia
    Nosso ex-presidente, Juscelino Kubitschek não teria feito Brasília se não tivesse o interesse e a audácia. Ela foi criada em apenas três anos e meio. Se não tivesse sido começado nunca teria sido feito. Precisamos ter essa mesma organização, coletividade e audácia.
  • Existe a EMENDA 29
    Nela os estados precisam aplicar 12% do que arrecadam anualmente em impostos. Os municípios precisam investir 15% de sua receita. No entanto os estados não conseguem gastar nem 9%, há porcentagem para campanhas de ensino. Tal qual é feito com o tabaco e o álcool.Vejo pessoas como lentes, e se essas lentes só vem destruição e tristeza e noticias ruins. Elas não sabem o que é bom, porque elas só sabem o lado ruim. Elas nem ao menos tem ciência do que é. Nem se perguntam, sabe porque? Porque no mundo delas isso é imutável.
  • Educação não existe
    Atualmente temos o Ministério da Educação, ela que não educa as pessoas. Quem educa é pai e mãe. A preocupação nossa tem que ser em ENSINAR as pessoas o que é correto. E não esconder isso da sociedade em uma caixa com grades.
  • Web 2.0 – inovação e pensamento conjunto 
    Vendo as CDH’s você nota que grande parte das pessoas que ali estão, não se sentem parte da sociedade, colocam só seus anseios, sua indústria. Essas pessoas deveriam ver felicidade e qualidade de vida, de todos.
  • Liberdade Individual
    Martin Luther King, disse uma vez ter um sonho; Em que todas as pessoas sejam julgadas, não pela cor da pele e sim pelo seu carácter. Não importa a cor da pele, não importa a religião, não importa o vício. Temos que ensinar essas pessoas a mudar sua postura e controlar os abusos.
  • Drogas no plural
    Em todas as CDH’s anteriores haviam depoimentos que falavam de álcool e crack. Tem que explicar as pessoas dali que o debate é outro (como falei acima).

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Depois da sessão, por volta das 4;20 da tarde.
Estavamos, Matias, Dr. Emilio, Dr. Ricardo, e eu caminhando pela explanada e surgiu a melhor sinopse da que foi audiência, para nós que presenciamos aquele ‘circo pegar fogo’;
“até parece o programa do Ratinho…”
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Fato é que hoje sabemos que a Maconha da forma que está constituída na sociedade hoje, não é a solução. Criminalizar e prender não é a solução. Essa guerra as drogas só vem prendendo peixes pequenos. Em outro ponto cientistas brasileiros estão atrás em pesquisas porque plantar, importar, utilizar é a mesma coisa que traficar. Logo quem faz isso no Brasil, faz de forma ilegal. Há a visão deturpada da televisão que mostra apreensões de quantidades pequenas de maconha e tratando os usuários como marginais. Esquecendo de explicar pro telespectador o que é o artigo 28, o que é o artigo 33.

Depois de tudo isso, entendi na verdade o objetivo da audiência por parte do senador poderia estar errada. Ou seja o Objetivo, como nos debates anteriores, é subsidiar a decisão sobre a transformação ou não em projeto de lei de uma sugestão popular de regulamentação (SUG 8/2014). Quando na verdade deveria ser discutir as formas. Porque pode não acontecer na relatoria do Senador?
Porque um bando de religiosos e pessoas com interesses privados invadiram o senado e deturparam o objetivo desta. Criaram um Sim x Não, Corinthians x Palmeiras. Quando na verdade seria entender e melhorar as regras do ‘futebol’ apenas para maiores de idade.

Se você ver esse video, entenderá que há uma grande indefinição do panorama futuro.

Extra!

  • Raça! Ir em uma CDH é tão emocionante quanto um jogo do Corinthians! O diante de tantos depoimentos e fatos tão distorcidos, o nervosismo impera – mais que a razão muitas vezes, o discurso muda ao longo da audiência. É quase pegar a bola rolando aos 40 do segundo tempo e você não pode titubear.
  • ‘com verba própria’ frisei nesse artigo algumas vezes, porque muitos dos que estavam ali provavelmente tinham sido bancados com dinheiro de dízimo/ou dinheiro de indústrias farmacêutica ou de clinicas de recuperação para exercer interesse destas indústrias.
  • A revolução não será televisionada; Essa parte da transmissão, onde teve o meu relato e o dos companheiros foi somente transmitido na TV Senado pela internet; ‘culpa’ do horário eleitoral gratuito: que na TV convencional passa a propaganda dos partidários das 13:00 às 13:50.
    O mesmo ‘problema’ também ocorreu nas demais sessões, isso porque os nossos queridos proibicionistas chegavam em grande número – antes do horário justamente com esse intuito.
  • No dia 13 de Outubro de 2014, a bancada de convidados foi proibicionista e a maconheirada apareceu em peso para defender a causa!
  • Jean Wyllys não tem qualquer relação com esse debate! Ao contrário do que muitos pensam – que o debate ocorre por ele ter criado uma ‘proposta’. Na verdade Jean Wyllys nem se quer esteve presente em nenhuma das sessões. Suponho que porque este tinha um interesse maior em contabilizar votos do que com o real valor da causa.
  • Luciana Genro também não se fez presente em nenhuma sessão, primeiro porque ela estava em campanha e não poderia utilizar o senado para influenciar votos. Tal qual fez Bassuma.
  • Patria que me pariu; Nenhum cantor famoso que falava de maconha na minha juventude, como D2, B Negão, Marcelo Yuka, Gabriel o Pensador, Catra esteve presente para citar seus pensamentos.

Queria prestar também os meu sincero agradecimento primeiro a todos que estavam presente nesta e nas demais audiências defendendo, expondo as verdades, aos especialistas convidados a CDH’s e meus os amigos que apoiaram e de alguma forma colaboraram e estiveram presentes em toda essa trip, dividindo risadas e conhecimento;

Filipe Marques, Everton V., Julio Cesar, Victor Almeida, Carlos Penna, Homem Planta, Rafael Cunha, Pedro, Coletivo Apologia-DF… Meus pais também que não gostaram muito da idéia inicialmente, mas sempre me deram liberdade pra correr atrás dos meus princípios.
Enfim, desculpa se esqueci de alguém e fica meu convite pra você que leu esse artigo até o final, para que participe dos próximos debates. Tem muita coisa acontecendo e você pode ajudar – de muitas formas!

Ahhh, só perto das 19 horas da noite voltei ao Senado, peguei a câmera lá – o cidadão havia deixado lá e avisado que eu ia passar. Não sei como é o nome dele, mas agradeço de coração a atitude.

*Fotos de Geraldo Magelo / Agência Senado

Veja todos os depoimentos da CDH, aqui!

último aviso! Galera, vamos participar das audiências, seja com assinatura, com presença física, acompanhando as noticias e compartilhando entre os colegas, precisamos e muito nos unir nesse passo tão importante pro Brasil. Vamos mostrar nossa força, o mundo é dos buddies!

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