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Para quem achava que as Olimpíadas são só tragédias e manipulação perfeito para o momento para presidente que não foi eleito por votos. Acertou, mas há algo de bom nisso tudo, a mídia internacional e os turistas estão enfatizando os problemas daqui, quem sabe agora. O gigante acorda e vai a luta, por um Brasil melhor, de verdade.

O caso rolou quando ÉPOCA decidiu entrevistar a advogada americana, Deborah Peterson Small, fundadora da organização Break the Chains (Quebrando as Correntes)… Ela veio ao Brasil achando que aqui seria o lugar mais receptivo do mundo, como dizem as propagandas, mas passando por Salvador e Rio de Janeiro acabou descobrindo – sem querer – o pior do Brasil e digo mais, infelizmente o Brasil é assim. Nós falamos e tem gente que não acredita ou não quer admitir.

“Não me entenda mal, eu adoro o Brasil, mas vocês precisam enxergar que são preconceituosos, mais do que gostariam de admitir. Isso não é demérito do brasileiro, apenas..” Diz ela.

Tem gente que quando escuta falar no preconceito social, cultural que existe no país, falamos das prisões e excessos em regiões periféricas e sempre há o que se atreve a dizer que somos esquerdinha, que somos socialistas e por aí vai… Não, não importa qual é nossa posição política quando se trata de preconceito, preconceito é um juízo preconcebido, manifestado de uma forma ultrajante, ofensiva… Estamos falando da realidade que acontece com a nossa gente, se preocupando com o nosso povo, já dizia o mestre Bezerra.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista;

ÉPOCA – Há décadas a senhora estuda a relação entre a política contra drogas e a população negra. O que encontrou no Rio corrobora sua tese?
Deborah – A política contra drogas no Rio é racista. Como em tantos lugares, investidas da polícia no Rio não alcançam consumidores de drogas de bairros nobres e classe média – nem as casas dessas pessoas. E isso vai acontecer na Olimpíada. Criou-se uma percepção, equivocada, de que o consumo e a venda de drogas têm uma cor. Essa falsa consciência mora fora e dentro das comunidades. Quem mora lá acredita que merece aquele tratamento em nome do perigo iminente. Fiquei muito chocada com os números de mortos pela polícia no Brasil – e igualmente pasma com as pessoas que aplaudem a polícia que mata. A polícia é a segunda causa de mortes no Brasil. Isso é esquizofrênico. A Olimpíada poderia servir como bandeira para os direitos da população negra.

ÉPOCA – A senhora sofreu preconceito no Brasil?
Deborah – Antes de responder, queria explicar que, diferentemente dos Estados Unidos, onde a luta é entre brancos e negros, no Brasil a batalha é entre negros e não negros. Aqui, quanto menos negro você for, melhor. As pessoas deixam de usar o cabelo com cachos e roupas afros para parecer menos preto. Eu sou negra, minhas roupas são coloridas e amo bijuterias. As pessoas me olham diferente, porque não estão acostumadas a conviver com uma pessoa como eu. O preconceito aparece no dia a dia. No hotel, durante o café da manhã, perguntaram cinco vezes se eu estava hospedada aqui, porque era a única negra sendo servida. Em Salvador, estava à beira-mar com um amigo quando um desconhecido perguntou quanto eu custava. Na cabeça dele, eu só podia ser uma prostituta. Não me entenda mal, eu adoro o Brasil, mas vocês precisam enxergar que são preconceituosos, mais do que gostariam de admitir. Isso não é demérito do brasileiro, apenas. Moro na Califórnia, onde, em tese, as pessoas são descoladas. Toda vez que vou à praia com meu neto de 4 anos e meio, vejo famílias guardando os objetos pessoais, como se meu neto, um bebê de sunga, fosse roubá-los. Tenho outro neto, de 8 anos. Ele ainda não entende que a vida dele será diferente, que terá de dar explicações que as outras crianças não precisam aprender. Mas vou precisar ter essa conversa com ele, explicar que, quando a vendedora de uma loja vai atrás dele, não é porque quer ajudar, mas porque tem medo que ele vá roubar alguma coisa. Não gostaria de que ele perdesse a pessoa que é hoje. Quando essa conversa acontecer, ele vai deixar de ser totalmente livre. Mas não posso protegê-lo a vida toda, então tenho de fazer isso e rezar para que ele sobreviva neste mundo cruel.

ÉPOCA – Há algum tipo de política pública que a senhora considere positiva no tratamento de usuários?
Deborah – Em São Paulo, conheci o programa Braços Abertos, que conseguiu levar equilíbrio à vida de usuários de drogas carentes oferecendo acolhimento e casa. Os frequentadores praticam esportes, tocam instrumentos musicais, limpam. Eles eliminaram a vida caótica provocada pelas drogas e a pessoa segue em frente. A proibição também esconde outras facetas das drogas, como os bancos que lavam o dinheiro do narcotráfico. Por isso, falo que a política contra drogas não se trata de acabar com as drogas. Nos Estados Unidos também é assim.


ÉPOCA – A senhora é contra a proibição das drogas. Por quê?

Deborah – A proibição não faz as pessoas ter boa relação com as coisas. Especialmente os viciados. Como o nome diz, são pessoas que têm uma relação desequilibrada com algum tipo de consumo, e que são incapazes de ficar sem aquilo. Recentemente, as prisões nos Estados Unidos proibiram presos de fumar. O que acontece com pessoas viciadas em algo – de fumo a açúcar – sumariamente impedidas de usar? Você começa a usar de um jeito mais perigoso. No caso dos presos, eles começaram a provocar pequenas mutilações na pele para encurtar o caminho da nicotina dos adesivos. Vou dar outro exemplo, a cocaína. O cérebro de uma pessoa que não usa drogas alcança a sensação de bem-estar praticando esportes, fazendo sexo e etc. Quem usa a droga alcança essa sensação rapidamente, com intensidade dez vezes superior. Quanto maior o consumo, maior a queda dessa sensação, que chamamos de crush. Com o tempo, o cérebro perde a habilidade de conseguir naturalmente e a pessoa depende da droga para se manter bem. A proibição não permite falar sobre isso nem encontrar meios de equilibrar essa situação.

ÉPOCA – Como a senhora vê uma possível vitória do candidato republicano, Donald Trump?
Deborah – Os republicanos têm o poder do Congresso. Se ganharem, terão o controle das três Casas. Então, por um lado, acho que os republicanos estão apostando porque querem ser os únicos no poder. E aí você tem um Trump, que é o oposto, em todos os sentidos, de Obama. Trump não é preparado, não sabe governar, não é um líder. Trump é um demagogo. Até meu neto de 4 anos sabe respeitar uma pessoa. O mundo levará décadas para se recuperar se Trump for eleito. Tomara que os americanos são façam como os ingleses, que descobriram o que era a Brexit horas depois do fim da votação, numa pesquisa no Google.

O cotidiano, as vezes faz com que a sociedade se esqueça desse latente problema, mas não esqueça. Não podemos esquecer,  não podemos parar de lutar, juntos, pelo respeito, pela liberdade, pelos direitos individuais, pelo prazer.

Leia a entrevista completa aqui na ÉPOCA.

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