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Metade dos americanos usam maconha em algum momento de suas vidas, e muitos começam na adolescência. Embora alguns estudos sugiram que a droga poderia prejudicar o cérebro do adolescente, o verdadeiro risco ninguém sabe ao certo. Agora, os cientistas analisaram o uso da maconha a longo prazo, comparando as mudanças de QI em irmãos gêmeos que usaram ou se abstiveram de maconha por 10 anos.

O estudo reavaliou os dados de dois dos maiores testes clínicos realizados até hoje sobre a influência da maconha na inteligência, e sugere que a droga pode não ser culpada pelos efeitos vistos anteriormente.  Isso porque os cientistas não encontraram nenhuma ligação entre o uso de maconha e baixo QI. 

A investigação foi publicada nesta segunda-feira, dia 18, na revista “PNAS”, da Academia Nacional de Ciências dos EUA,  onde um dos objetivos era buscar fatores que poderiam estar comprometendo o resultado de trabalhos anteriores… e achou vários.

“Este é um estudo muito bem conduzido… e uma adição bem-vinda para a literatura”, conta Valerie Curran, um psicofarmacologista no University College London. Ela e seus colegas chegaram a “praticamente as mesmas conclusões” em um estudo separado, sem gêmeos e com mais de dois mil adolescentes britânicos, publicado no início deste mês no Journal of Psychopharmacology, diz. Valerie conta que o estudo tem limitações importantes e George Patton, um epidemiologista psiquiátrico na Universidade de Melbourne, na Austrália, acrescenta que, de alguma maneira o uso de maconha é seguro para adolescentes.

Psicofarmacologia é a ciência que trata da relação entre o uso de drogas (substâncias psicoativas) e as alterações psíquicas diversas da ordem do humor, cognição, comportamento, psicomotricidade e personalidade. [1]

Epidemiologia, é um campo da ciência que trata dos vários fatores genéticos, sociais ou ambientais e condições derivados de exposição microbiológica, tóxica, traumática que determinam a ocorrência e a distribuição de saúde, doença, defeito incapacidade e morte entre os grupos de indivíduos. [4]

A maioria dos estudos que relacionaram a maconha a déficits cognitivos, como perda de memória e baixo QI, são velhos e defasados, diz o estatístico Nicholas Jackson, da Universidade do Sul da Califórnia em Los Angeles, principal autor desse novo trabalho. Isso faz com que seja impossível dizer o que veio primeiro: o uso de drogas ou a deficiência do desempenho cognitivo. “É um cenário clássico da ovo X galinha”, diz ele.

Para a pesquisar se a maconha causa algum dano no cérebro, os cientistas começaram a seguir os grupos de adolescentes usuários de drogas ao longo do tempo. O primeiro estudo foi 2012, em Dunedin, Nova Zelândia, tiveram quedas significativas no QI entre as idades de 13 e 38 em usuários frequentes ​​em comparação com aqueles que usaram maconha antes dos 18 anos, ocasionalmente ou não sempre. O documento “teve um efeito importante sobre a pensar sobre os riscos da exposição excessiva no início de cannabis”, diz Patton, um co-autor. Os mais críticos, no entanto, ressaltaram que o estudo não conseguiu descartar outras explicações possíveis para o declínio do QI, como o ambiente de um adolescente, a família ou se abandonou a escola, por exemplo.

Teste
Uma maneira “poderosa” para abordar essas preocupações é estudar gêmeos idênticos, que compartilham os genes e a educação, diz Jackson. No novo estudo, ele e seus colegas analisaram 789 pares de gêmeos adolescentes a partir de dois estudos, um na Califórnia e outro em Minnesota entre idades de 9 e 11 anos. Ao longo de 10 anos, a equipe administrou cinco testes de inteligência e pesquisas confidenciais sobre o uso da maconha. Eles também perguntaram sobre outras drogas como analgésicos opiáceos (derivado do ópio), cocaína e consumo excessivo de álcool.

Usuários de maconha perderam cerca de quatro pontos de QI ao longo do estudo. Mas os irmãos gêmeos mostraram um padrão semelhante de declínio, o que sugere que a perda de qualidade mental foi devido a algo que não tem relação com a Maconha, diz Jackson. “Nossos resultados nos levam a acreditar que isso é influenciado por algo mais, “tem alguma relação com o ambiente compartilhado dos gêmeos, o que incluiria casa, a escola, e seus colegas”, diz ele.

No novo estudo, os adolescentes que relataram o uso diário da maconha durante 6 meses ou mais não apresentaram diferença com relação e em comparação com os adolescentes que tinham fumado maconha menos de 30 vezes. Esta é uma “clara indicação de que é improvável que a Maconha seja a causa de qualquer declínio de QI”, diz Claire Mokryz, um Ph.D. estudante no laboratório de Curran.
Dose
Analisando um outro estudo clínico de longo prazo feito no estado do Minesotta (EUA), acompanhando 789 adolescentes, Jackson encontrou o mesmo problema. Segundo o cientista, é provável que o problema esteja ligado a fatores socioambientais externos que fazem com que os mesmos voluntários desenvolvam menos habilidades cognitivas e ao mesmo tempo exibam tendência a se tornarem usuários de maconha.

Não é possível, porém, dizer se são condições econômicas ou problemas educacionais que causam isso – ao invés de um efeito neurotóxico da maconha – porque as pesquisas não acompanharam esses dados.

Pouca evidência
Mas há quem diga que o novo estudo tem falhas, ou melhor, falta de detalhes sobre quantas vezes e em que quantidade as adolescentes usaram a maconha, por exemplo. Os participantes foram convidados e questionados: “alguma vez você já experimentou maconha?” Se um entrevistado de 13 anos de idade, respondeu “sim” depois de apenas um único uso, pode ser considerado um “usuário de drogas”. Ainda assim, os cientistas não estão totalmente certos sobre um padrão cognitivo relacionado a Maconha. “Minha sensação é que este documento não fez o suficiente para descartar todas as preocupações do [nosso] estudo sobre os efeitos do início do consumo de cannabis frequentemente em adolescentes”, diz Patton.

E o último fator confundente, dizem os cientistas, é justamente o fator temporal. Era esperado que os adolescentes usuários de maconha só apresentassem declínio cognitivo relativo depois de começarem a usar a droga, mas muitos deles já estavam abaixo da média antes de começarem a fumar a droga.

Sarah Feldstein Ewing, uma psiquiatra da Oregon Health & Science University, em Portland, concorda. “Embora seja possível que os resultados sejam absolutamente precisos”, diz ela, o estudo representa uma “oportunidade perdida para obter uma análise verdadeiramente refinada” da contribuição de cannabis e outras substâncias para QI.

Embora não haja “evidências emergentes” que a maconha não diminua o QI, “isso não significa que o uso pesado na adolescência é livre de problemas”, diz Jackson. Outros aspectos do funcionamento diário podem ser afetados, diz ele, acrescentando: “nós precisamos desesperadamente de mais pesquisa sobre os efeitos que a maconha tem sobre o cérebro.”

“Encontramos pouca evidência para sugerir que o uso de maconha na adolescência tenha um efeito direto no declínio intelectual”, escreveram os cientistas. Jackson e seus colegas, porém, reconhecem que o trabalho ainda não põe um ponto final na questão, que deve ser abordada por outras pesquisas.

“Pesquisas sobre esse tópico são escassas e com frequência exibem resultados conflitantes”. Segundo ele, como não é possível submeter adolescentes a experimentos clínicos com maconha, é preciso usar abordagens “quase experimentais”, como a exibida por ele agora.

Qual é a melhor maneira de estudar esses efeitos?

Seria administrar a droga a pessoas e ver a duração, frequência e como cada dose afeta o cérebro, diz Jackson. “Infelizmente, esses tipos de estudos são quase impossíveis devido a restrições federais”. Por enquanto, ele diz: “eu fico mais preocupado com o que está acontecendo no ambiente da criança, que antes dos 14 anos busca refúgio nas drogas”, conclui.

Já havíamos falado sobre alguns desses testes, aqui e aqui em outubro.

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