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André Barros* (candidato a deputado estadual pelo PSOL-RJ, advogado da marcha da maconha e membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ) explana como ocorreu a Marcha das Vadias, na cidade do Rio de Janeiro, reunindo cerca de 500 manifestantes que seguiram pela orla de Copacabana. Barros lembra ainda, da truculência policial que ocorreu na Marcha da Maconha de 2012 que poderia ter se repetido na manifestação.

No dia 9 de agosto, ocorreu mais uma Marcha das Vadias. Não lembro se esta é a terceira ou a quarta, mas fui a todas elas. Na primeira, fizemos um protesto em frente à 12ª Delegacia Policial contra a violência policial às mulheres da orla de Copacabana. Este ano, o comportamento da polícia foi inaceitável.

Quando cheguei, fiquei assustado com o tamanho do efetivo policial, e quase não havia ativistas. Pensei até que o evento não aconteceria. Dei uma volta para tomar um café e, quando retornei, um bom número de pessoas já se preparava para a manifestação. Muitas crianças, pintura nos rostos e bocas, cartazes, um ambiente de absoluta paz.

Quando a Marcha partiu, a polícia já estava ostensivamente preparada e começou a empurrar a manifestação para que a mesma não alcançasse a rua. Em primeiro, poderia ter sido encaminhado à manifestação um destacamento feminino da polícia. O efetivo e os armamentos eram totalmente desnecessários. A polícia, muito perto e provocando, gerava cantos contra ela.

Quando senti que algo mais grave poderia acontecer, liguei para o Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ. Este me autorizou a falar com os policiais, a fim de evitar qualquer violência. Fui ao comandante da operação policial e disse que o evento tinha sido avisado com antecedência por ofício, que mostrei para o policial. Disse que o movimento estava totalmente amparado pela Constituição Federal em seu artigo 5º, inciso XVI, e pela Constituição Estadual, em seu artigo 23 e parágrafo único. O comandante disse que não iria receber aula de direito e não quis qualquer diálogo.

Mostrava-se horrorizado, com alguns peitos de fora, e todas as alegorias da manifestação, como alguns pênis de plástico, aliás, bem menores que os cassetetes dos policiais. A lei maior proíbe armas na manifestação e ninguém estava armado no evento.

Como não havia diálogo, fui para a frente do evento, onde estava meio tenso. Num certo momento, vi dois carros do choque se aproximando, e um policial descendo sorrateiramente com uma bomba de efeito moral na mão. Logo lembrei do que aconteceu na Marcha da Maconha de 2012 no Rio de Janeiro. Marcha que também deixa a polícia horrorizada e com comportamento semelhante ao que teve na Marcha das Vadias. Naquela, há dois anos, um policial soltou uma bomba de efeito moral e eles saíram disparando tiros de bala de borracha de grosso calibre e acabaram com a Marcha da Maconha a bala.

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Quando vi o policial descendo com a bomba, olhei bem na cara dele e falei: “meu amigo, está cheio de crianças aqui, o senhor é pai e amanhã é dia dos pais, não faz uma barbaridade dessas”. Um pouco envergonhado diante das minhas palavras, o policial chegou perto e pediu para não deixar as pessoas passarem pela primeira faixa da pista, que ele iria segurar seu pessoal.

Fiquei, então, à frente da Marcha das Vadias, o tempo todo de olho nesses policiais que estavam com as bombas de efeito moral. Fizemos um acordo de olhares, sem que o comandante percebesse pois, com esse, não havia diálogo, e parece que ele gostaria que aquelas bombas fosse jogadas na multidão.

A polícia se comportou como nossa sociedade racista, proibicionista, capitalista e, principalmente, machista. Tratando as mulheres com violência, sem aceitar seus gritos contra os estupros, abortos ilegais e discriminação. Esta sociedade nojenta, que diariamente desrespeita as mulheres na televisão, revistas, rádios e jornais em programações e anúncios, onde a mulher é sempre colocada como objeto sexual.

*André Barros é candidato a deputado estadual, nº 50420, advogado da Marcha da Maconha, mestre em ciências penais, membro licenciado da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ e do Instituto dos Advogados Brasileiros

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