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Algo que não pode ser apenas um sonho ou uma ideia, mas deveria acompanhar qualquer projeto e ação regulamentadora é o FAVELA VERDE, conforme explana Ricardo Targino, em um texto que vimos na Mídia Ninja.

O Estado e a sociedade devem enxergar a possibilidade de uma FAVELA VERDE CULTIVANDO LIVREMENTE MACONHA, se emancipando, fazendo negócio, ficando mais bonita, plena de atividades culturais e mais afeto em uma forma de aliviar o sofrimento, de décadas, das pessoas que são as verdadeiras vítimas da guerra contra as drogas e o narcotráfico.

Por Ricardo Targino*

Medical CannabisSonhei que estava numa favela. Subia e descia um emaranhado de escadarias e becos, vias públicas construídas pelas próprias comunidades, na maior parte das vezes sem financiamento nem ‘patrocínio’ algum. Eles por eles mesmos. Os caminhos mais difíceis do Brasil são sempre abertos pelo próprio povo. Assim foi nos morros. A favela construiu como pode suas vias de circulação.

A novidade no sonho era a beleza radical da mudança. A favela estava completamente arborizada e verde. Plantava-se MACONHA livremente, havia associações de produtores, desenvolveu-se uma tecnologia para o cultivo na laje e todo um novo mundo de produtos e serviços poderoso trouxe um dinheiro limpo e verde que só fez o lugar mais belo e próspero.

Entre a FAVELA DO SONHO onde a maconha regulamentada muda radicalmente a paisagem e FAVELA DO REAL, onde a realidade das BOCAS é silenciada e o tecido social do narcotráfico se modifica de modo acelerado há o ABISMO DE IGNORÂNCIA com o qual tratamos os tabus e perpetuamos injustiças e preconceitos.

Está em curso também uma verdadeira recomposição do tecido social do NARCOTRÁFICO. O negócio ‘CLASSE A’ das drogas já se faz exclusivamente no asfalto e emprega muito mais gente no asfalto do que morro. Na favela restam as bocas padrão LADRÃO DE GALINHA: muito crack, pó de péssima qualidade e a MACONHA, quem diria, tornou-se a droga MAIS CARA de boa parte das VELHAS BOCAS de fumo!

Quando maconha torna-se a droga mais cara da boca é porque a coisa está mesmo feia! Restou para os pobres o caminho do CRACK, a droga mais barata para um tipo de recreação que a humanidade sempre fez em toda a sua história, entretanto por razões econômicas e sócias, foi incluindo no decorrer dela CRIMINALIZAÇÃO SELETIVA.

[quote_box_left]Regulamentar é melhor que proibir. Regulamentar trará a possibilidade de novas tecnologias sociais para vencer a pobreza e a violência. UMA OUTRA FAVELA TAMBÉM É POSSÍVEL se olharmos com mais humanidade e menos hipocrisia para a nossa própria vida.[/quote_box_left]

A boa cocaína circula de helicóptero e não de mototáxi. As máfias do narcotráfico de fato nunca estiveram na favela. Os seus verdadeiros donos são respeitáveis senhores que circulam livremente nas rodas do poder econômico, político e midiático. O NARCOTRÁFICO, como seus maiores lucros, pertencem à CASA GRANDE, não à senzala. Usavam a mão de obra barata e já criminalizada na estruturação do negócio e reservavam para si os maiores lucros. O mecanismo SENZALA que lhes assegurava altíssima lucratividade, garante também, ainda hoje, impunidade para a CASA GRANDE e chicote e tronco para a FAVELA.

O Estado teve muito pouco a oferecer nas favelas, além de POLÍCIA e CADEIA. Racismo institucional que perpetua cadeias de dependência econômica e mais miséria. O negócio do tráfico hoje traz pouco dinheiro para a favela e quem acabou com a boca, acabou também com a outra fila que havia na boca, mas ninguém quer falar sobre ela. Havia a fila do gás, do remédio e do material escolar que as bocas distribuíam nos mesmos locais onde se vendia a droga! O Estado acabou com essa fila, não trouxe proteção social nem políticas públicas e conseguiu ainda fazer das bocas que resistem em atividade os lugares mais deprimentes e sombrios. Mafioso é este ESTADO que não pensa a possibilidade de uma FAVELA VERDE CULTIVANDO LIVREMENTE MACONHA, se emancipando, fazendo negócio, ficando mais bonita, plena de atividades culturais e mais afeto! Onde é que você acha que mora a paz?

Regulamentar é melhor que proibir. Regulamentar trará a possibilidade de novas tecnologias sociais para vencer a pobreza e a violência. UMA OUTRA FAVELA TAMBÉM É POSSÍVEL se olharmos com mais humanidade e menos hipocrisia para a nossa própria vida.

*Ricardo Targino é cineasta e ativista dos movimentos de cultura e comunicação. Foi coordenador-geral da ENECOS (Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação). Dirigiu o premiado curta Ensolarado.

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