Apoiomedicos maconha

No texto, Adriano Andrade, advogado ativista membro da ACP, explana a falta de interesse na legalização por parte da indústria farmacêutica e de seu enorme lobby, composto por médicos, funcionários da ANVISA e até políticos como candidato Osmar Terra. Entenda mais sobre a relação entre a atual proibição da maconha com os “tarja pretas”.

MACONHA NÃO! TARJA PRETA SIM!

Entre Osmares, Ronaldos, Marisas, Marinas, ANVISA e Demônios
Por Adriano Andrade da ACP – Advogados Contra o Proibicionismo

Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa), é uma entidade “sem fins lucrativos” que representa os maiores laboratórios do país. Atualmente, a Interfarma possui 55 laboratórios associados, que hoje são responsáveis pela venda de 80% dos medicamentos de referência do mercado e por 33% dos genéricos, no canal farmácia.

Conhecida por seu lobby agressivo, a indústria farmacêutica afeta até o SUS. Segundo pesquisa da ANVISA, gestores de saúde e médicos são influenciados por meio de propagandistas e brindes: 37,7% dos médicos dizem que podem sofrer influência e 67% levam em conta a divulgação na hora da prescrição.

“Atualmente, a Interfarma possui 55 laboratórios associados, que hoje são responsáveis pela venda de 80% dos medicamentos de referência do mercado e por 33% dos genéricos, no canal farmácia.”

E mesmo a ANVISA é altamente influenciada pelos lobistas das empresas farmacêuticas, laboratórios químicos e indústria alimentícia, sendo eles que praticamente gerenciam as decisões da Agência Reguladora sobre qual substância, compostos químicos ou alimentos podem entrar ou sair do mercado brasileiro. Para se ter uma noção da influência dos lobbys perante a ANVISA, basta dizer que o Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos, sendo o principal destino de produtos banidos em outros países. Nas lavouras brasileiras são usados mais de 30 venenos proibidos na União Europeia (UE), nos Estados Unidos e até mesmo no Paraguai.

Em 2010, a Interfarma foi a maior doadora da campanha política de Osmar Terra, sendo um dos quatro candidatos privilegiados com a colaboração de R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais) da Associação.

Desde que foi eleito Deputado Federal, Osmar Terra tem se mostrado o arauto da proibição no Congresso Nacional, sendo o autor do PL 7663/2010, que prevê o aumento das penas para traficantes e também a internação involuntária de usuários de drogas em comunidades terapêuticas religiosas, tendo angariado a simpatia de cristãos em geral, empresários e médicos que militam pela “família brasileira” sob o tacanho fundamento da proibição baseada em pesquisas duvidosas ou mesmo ultrapassadas, mas que na verdade encobrem interesses econômicos e políticos, como já referenciamos em nossa participação perante a audiência pública da Sugestão n°8/2014, realizada no Senado Federal em 25/08/2014.
Assista:

Percebe-se que o Deputado Terra age em três frentes proibicionistas que se intercomunicam: religião, comunidades terapêuticas e indústria farmacêutica. Já falamos sobre as duas primeiras no Senado e é sobre a última que nos debruçaremos em síntese, demonstrando o ativismo contraditório do Deputado em prol dos interesses da indústria farmacêutica.

Enquanto a marcha da maconha para uso recreativo lutava pelo fim da guerra e abria caminho para a discussão sobre a maconha medicinal no Brasil, o Deputado se dizia completamente contra a maconha, afirmando peremptoriamente que a erva não trazia qualquer benefício ao ser humano ou à sociedade. Após o caso da pequena Anny Fischer, paciente de Maconha Medicinal de Brasília, tomar força no Brasil, percebeu-se que o Sr. Osmar Terra mudou um pouco o discurso, mas não a ponto de admitir estar absolutamente errado.

Seguindo o seu Twitter, percebe-se que, sem saída perante às evidências científicas mundiais, o deputado teve que se render às propriedades médicas da planta, mas com uma ressalva importante: a de que somente o CBD, um dos 60 canabinóides presentes na planta, poderiam ser usados e desde que de forma isolada, pois o THC é que não teria propriedades medicinais.

Qualquer pesquisa na internet é suficiente para se concluir que a maconha é utilizada in natura, sem qualquer processo industrial ou farmacêutico que isole algum canabinóide. O que se faz é extrair de uma planta com as concentrações específicas para cada tratamento – essa proporção já está na planta! Essas evidências ainda não foram capazes de demover o Deputado e o fato de ser patrocinado pela Interfarma também diz muita coisa.

Em maio, após o vídeo da Anny aparecer no Fantástico e os seus pais conseguirem uma liminar na justiça autorizando a importação da seringa com extrato de maconha, Dirceu Barbano,
presidente da ANVISA, sinalizou a urgência na desclassificação da substância da lista F1 (proscritos), para C1 (permitidos). Posou para foto com familiares de pacientes e advogados e tudo mais. Só que a reunião realizada em junho de 2014 decidiu pela prorrogação da deliberação para setembro.

osmar terra plc 37 Não à liberação das drogas
Osmar Terra, o arauto da proibição no Congresso Nacional

Em setembro, a expectativa foi grande entre os parentes que aguardavam a medida. Mas ao reverso do que se esperava, um dos conselheiros da ANVISA pediu vistas do processo, o que significou que a deliberação estava desde então suspensa e por prazo indeterminado. Leia-se: os reais interessados não querem perder nem eleitores nas vésperas das eleições, nem patrocinadores como a indústria farmacêutica, que visa claramente transformar o extrato natural de maconha, que pode ser produzido em casa praticamente de graça, em remédio industrializado, controlado e com alto custo e lucros exorbitantes a serem repassados ao consumidor final. Na mesma semana em que suspendeu a reclassificação do medicamento concentrado de CBD, mais um agrotóxico foi autorizado pela ANVISA para ter livre acesso às nossas mesas.

Mais recentemente, o Deputado soltou em seu twitter que a maconha medicinal é a maior hipocrisia do século e que não tem nenhum efeito medicinal, o que é acompanhado por Ronaldo Laranjeira e a presidência da Associação Brasileira de Psiquiatria – psiquiatria, ressalte-se, um dos ramos da medicina que mais prescreve remédios psicoativos controlados e que mais tem influência do lobby da indústria farmacêutica.

As evidências científicas e terapêuticas são inúmeras, a começar por Israel, que é uma das maiores potências da medicina mundial e que administra a maconha na forma vaporizada e fumada dentro de hospitais públicos e com alta concentração de THC. A maconha in natura representaria no Brasil uma concorrência desleal entre muitos remédios caríssimos da indústria farmacêutica, dentre os quais, os utilizados contra epilepsia, dores nevrálgicas em geral, inapetência, efeitos da quimioterapia, diabetes tipo 2, tourrette, dentre outros inúmeros mais, até o câncer, segundo pesquisas em andamento.

Então não interessa ao porta-voz Osmar admitir a entrada de um medicamento com tamanho espectro de eficiência e que desbancaria boa parte dos associados da Interfarma. Para dar coro ao seu pleito, Osmar Terra utiliza-se de entidades e pessoas religiosas, como é o caso da candidata Marisa Lobo, fundadora do movimento “Maconha Não!”, que teve sua licença de psicóloga recentemente cassada pelo CFP por misturar religião com profissão, e a própria candidata à presidência Marina Silva, ferrenha defensora do fundamentalismo evangélico.

No último dia 22/08/2014 a justiça brasileira autorizou a importação do primeiro medicamento a base de THC, para desespero dos medrosos proibicionistas. Na semana passada, França sinalizou que começará a plantar maconha medicinal para distribuição e o governo da Alemanha vai autorizar o autocultivo da planta para pessoas com doenças graves e na Itália o exército ficará responsável pelo cultivo da planta. Nosso vizinho Chile autorizou a primeira plantação para uso medicinal e Uruguai começa o cadastramento dos primeiros cultivadores. Enquanto o mundo atua em prol da vida e contra a violência, no Brasil a população ainda discute se é moral ou não, enquanto a indústria farmacêutica ser movimenta para abocanhar mais essa fatia do bolo de remédios.

CBD e THC já passaram. Ainda faltam ao menos 58 canabinóides para Osmar Terra, Ronaldo Laranjeira, Marisa Lobo e Marina Silva demonizarem, em nome dos interesses da indústria farmacêutica e do fundamentalismo religioso enquanto a ciência os desmente. Alguém arrisca qual será o próximo demonizado da lista?

1 COMENTÁRIO

  1. isso é notório! e esse discurso, será reforçado pela mídia, contra a legalização e descriminalização da maconha. e é um dos riscos que os usuários sejam recrativos ou para uso medicianais, correm se a maconha for legalizada. pois o uso ficará altamente restrito, culminando para a continuação do tráfico da mesma. é uma tática que vem se desenhando, mas seremos resistentes perante a tudo isso, e triunfaremos perante as adversidades. Jah Bless!

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