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A maconha sempre foi rodeada pela marola do achismo e do preconceito. Por isto, ouvimos por aí muitos argumentos totalmente infundados que apoiam sua proibição. Chegou a hora de falar sério e separar o que é verdade e o que é mito quando pensamos no bom e velho baseado – nas palavras do Dr. Dan Werb, Diretor e Presidente do Conselho Científico do Centro Internacional pela Ciência na Política de Drogas.

As conversas sobre políticas da maconha estão esquentando. Então não surpreende que subitamente estejamos imersos em alegações e contra alegações sobre vários tópicos relacionados ao uso da maconha e sua regulamentação.

Maconha causa esquizofrenia. Regulamentação da maconha leva ao aumento das fatalidades no trânsito. Esses são apenas alguns exemplos que parecem surgir, vez após vez, em artigos de jornais e online. Essas afirmações soam verdadeiras, talvez porque são repetidas tantas vezes, e também porque frequentemente se alega que elas são baseadas em evidências científicas.

No Reino Unido, o Telegraph até mesmo publicou a seguinte manchete: “Importante novo estudo descobre que a maconha é tão viciante quanto a heroína”. Superficialmente, essa alegação soa como se fosse apoiada por evidências científicas. Mas ela é?

O Centro Internacional pela Ciência na Política de Drogas se incumbiu de determinar a validade da sustentação científica de tais afirmações. Ao longo do ano passado, trabalhamos diligentemente, varrendo as mídias de notícias e conversas online sobre maconha, para identificar as alegações mais repetidas ou de maior destaque, incluindo as alegações acima, relacionadas ao seu uso e regulamentação.

Revisando relatos da mídia, anúncios governamentais, e monitorando discussões online sobre maconha, reduzimos a lista a 13 afirmações. Depois, realizamos uma abrangente revisão científica de toda a pesquisa relevante revisada por pares e publicada. Como nossos novos relatórios explicam, descobrimos que nenhuma das alegações é fortemente comprovada por evidências científicas.

Por exemplo, a ciência não sugere, na verdade, que a maconha é tão viciante quanto a heroína. Ao contrário, estima-se que a dependência em cannabis ocorre em menos de uma em dez pessoas que usem maconha ao longo de toda a sua vida. Em contraste, as taxas de dependência para toda a vida em heroína são de aproximadamente um em quatro.

Uso de maconha causa esquizofrenia? Embora estudos tenham demonstrado que o uso da maconha é associado com a esquizofrenia, essa é uma afirmação muito diferente. Cientistas sugerem que pessoas sob risco de esquizofrenia talvez usem maconha para atenuar sintomas iniciais da condição, e que essa é a razão da associação. A alegação, então, confunde correlação com causalidade.

Além disso, se o uso da maconha causasse esquizofrenia, presumivelmente nós veríamos mudanças nas taxas de esquizofrenia baseadas nos níveis de uso de cannabis. No entanto, durante um período em que o uso da maconha aumentou em quatro vezes no Reino Unido (1970-2010), a incidência de esquizofrenia permaneceu essencialmente estável.

Regulamentação da maconha leva a mais fatalidades de trânsito, como resultado de pessoas dirigindo enquanto chapadas? Em Colorado, a posse e o uso recreacional da maconha foram regulamentados em 2012. Desde então, as taxas de fatalidades de trânsito têm estado abaixo da média anual observada ao longo da década passada (ou seja, desde 2002). É claro que não sabemos que tipo de taxas de fatalidades de trânsito observaremos nos próximos anos em Colorado e em outros lugares que regulamentaram a cannabis. Mas, atualmente, não há nenhuma evidência que sugira que a regulamentação da cannabis irá levar mais pessoas a se envolverem em acidentes de carro letais.

Esses são apenas alguns dos exemplos revisados nos relatórios. A principal conclusão é que, na maior parte, o debate global sobre política da maconha está atolado em alegações anticientíficas. E isso pode ter sérias consequências para a efetividade (e males potenciais) de políticas da maconha em muitos países.

No Canadá, por exemplo, uma eleição federal está marcada para o outono, e a regulamentação da maconha tem estado em evidência, com o atual governo conservador frequentemente defendendo uma abordagem “dura com o crime”. De forma reveladora, a produção de anúncios de utilidade pública anti-maconha pelo governo canadense recentemente atraiu a ira do principal grupo médico do país, a Associação Médica Canadense, que se recusou a endossar a assim chamada “campanha educacional”, porque acreditava que os anúncios estavam servindo a propósitos políticos, e não educacionais.

Nos Estados Unidos e em outros lugares, grupos de campanha de terceiros independentes continuam a espalhar desinformação sobre a maconha. Kevin Sabet, diretor do grupo Abordagens Espertas à Maconha, um grupo antiregulamentação, declarou na CNN que a cannabis “é uma droga que pode resultar (em) sérias consequências de longo prazo, como esquizofrenia”, uma alegação que, como descrito acima, não é comprovada pela ciência.

Os perigos de mascarar falsidades sobre a maconha como evidências científicas são sérias: se o público em geral e nossos elaboradores de políticas não puderem distinguir o que é verdadeiro ou falso, como poderemos esperar o desenvolvimento de abordagens efetivas e baseadas em evidências para controlar a maconha?

Nossos novos relatórios irão ajudar a separar os fatos da ficção. Dado o rápido movimento no sentido da regulamentação da maconha que estamos testemunhando em todo o mundo, e a aproximação da próxima Sessão Especial sobre Drogas da Assembleia Geral das Nações Unidas, garantir que a verdade sobre o uso e a regulamentação da maconha esteja disponível publicamente se torna mais importante do que nunca.

*Dr. Dan Werb é o Diretor e Presidente do Conselho Científico do Centro Internacional pela Ciência na Política de Drogas.

Este artigo foi publicado originalmente pela Open Society Foundations. Você pode ler o original aqui.

Tradução de Danilo Akiro Ikedo para o Talking Drugs

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